Há 10 anos, o Claretiano transforma a vida de Povos Indígenas de Roraima

Jovem com vestimenta social e adornos indígenas posando sorridente em frente ao painel com o logotipo da Claretiano Faculdade, com decoração temática ao fundo.

“Em 2014, o Claretiano Roraima foi procurado pela Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIRR). A Organização buscava uma parceria que pudesse atender as demandas das Comunidades Indígenas junto às escolas que não possuíam professores formados para atender a Educação Básica”, conta a Profa. Rosana Silva de Souza, Coordenadora adjunta do Núcleo de Pesquisas e Educação Indígena de Roraima (NUPEIRR) e coordenadora adjunta do curso de Pedagogia, no polo de Boa Vista.

O Claretiano entendeu e acolheu as demandas e solicitações dos povos originários de Roraima, e assim, abriu as portas para a formação superior em 2015, com oferta de bolsas para mais de 150 acadêmicos no curso de Pedagogia.

Neste texto, vamos mostrar um pouco mais dessa iniciativa que tem transformado vidas na região amazônica brasileira. 

Claretiano e o início de uma transformação

Para atender às demandas dos povos originários, o Claretiano ofereceu o curso de Pedagogia EaD, no polo de Boa Vista. Rosana conta que o Claretiano passou a fazer encontros mensais, desenvolveu o material, atividades, provas e entrega das atividades personalizadas para atender as demandas.  

“Apenas o curso de Pedagogia passou a contar com uma equipe de professores locais que pudessem entender as especificidades das culturas indígenas”, revela a coordenadora. 

E foram muitos desafios enfrentados pelo Claretiano, desde o entendimento sobre as culturas de cada povo até a aceitação dos professores pelo grupo.

“Com o apoio incondicional da Coordenação Pedagógica do Claretiano e do Senhor Agenor Pereira da Silva (professor indígena graduado pela Universidade Federal de Roraima e membro da OPIRR), várias mudanças ocorreram em função das dificuldades relatadas pelos alunos em relação à linguagem, ao formato das atividades, às correções, aos prazos de entrega de atividades e estratégias utilizadas nos encontros nesse primeiro ano”, explica Rosana.

Algumas das dificuldades encontradas ao longo do caminho, segundo a coordenadora:

  • Nas comunidades, a energia é ativada e desativada através de geradores que têm horário para serem ligados e desligados diariamente.
  • Há, como combinado no acordo, computadores nas comunidades, mas isso não significa que estejam aptos para o uso ou que estejam disponíveis sempre quando o aluno precisa.
  • O analfabetismo digital foi o grande impasse no curso, pois a formação oferecida é na Modalidade de Educação a Distância.
  • A linguagem se mostrou outro ponto de difícil acesso para os tutores e alunos.
  • Os tutores que corrigiam as atividades sem conhecer o contexto desses alunos e as dificuldades de inserção da escrita, para eles, na língua portuguesa.
  • O tempo para a realização das atividades e para as reflexões sobre os conteúdos é diferente dos alunos não indígenas e teve que ser reconsiderado nesse novo contexto de alunos.
  • Os alunos questionavam a respeito da necessidade de conhecermos seu local de vida para que pudéssemos entender sobre as dificuldades que nos relatavam.

“A partir desses dados, começamos a nos organizar para irmos às comunidades indígenas e a compreendermos a cultura desses povos do Estado de Roraima”, afirma Rosana.

Além disso, era necessário estudar muito para construir uma proposta curricular diferenciada, voltada, especificamente, ao curso de Pedagogia Indígena, oferecido na modalidade EaD.

Diante das experiências com os alunos, conhecendo algumas comunidades, participando das discussões sobre educação em assembleias indígenas, interagindo com eles e refletindo constantemente com a Coordenação Pedagógica, nossa demanda consiste em fazer um estudo criterioso a respeito das possibilidades e necessidades de uma proposta curricular multicultural que possa atender esse público sem um reducionismo identitário”, diz a coordenadora. 

Mulher com blusa branca e óculos de sol tirando selfie em área de passeio próxima ao rio, com guindastes amarelos e pessoas ao fundo.

Rosana Silva de Souza

Em 2024, o Claretiano completou 10 anos de atendimento junto aos Povos Indígenas de Roraima, formando mais de 60 alunos, entre eles: pedagogos, nutricionistas, enfermeiros e  administradores. “Nosso propósito é criar um curso específico para os alunos, além de ofertar bolsas em Pós-graduação”, finaliza Rosana.

O que dizem os alunos

Francisco Bruno Moraes da Silva é um dos alunos do curso de Pedagogia do Claretiano. Segundo ele, a motivação para escolher o curso foi a necessidade de ter profissionais capacitados para atuarem como professores indígenas na unidade educacional da comunidade onde mora. 

Essa foi a mesma motivação de Gilmara Pereira da Silva, professora da educação especial

( SRM) e de Hemilly Augusta Da Silva Rocha. “Como não havia profissionais na [minha] comunidade, a prefeitura mandava da cidade e eles não se adaptavam à realidade da comunidade, o que ocasionava a desistência e a falta de professores”, diz Hemilly.

Francisco Bruno revela que o período de adaptação teve algumas dificuldades. “Estudei parte do Ensino Fundamental em escola indígena, e também cursei todo o meu Ensino Médio em uma instituição educacional indígena. Sair da vivência a qual já se está acostumado e se inserir em uma outra realidade, leva tempo, até que a gente consiga se adaptar”, conta.

Por outro lado, Gilmara conta que os maiores desafios foram a falta de internet e energia na comunidade onde mora e a logística para chegar às aulas presenciais. “Conseguir lidar com eles, pensando sempre positivo, e não desistir jamais”, afirma.

Já Hemilly fala que não sentiu tanta dificuldade, pois ingressou no Ensino Superior assim que saiu do Ensino Médio, e isso a ajudou a prosseguir na vida acadêmica. 

Planos para o futuro

Gilmara conta que o plano é ser professora concursada e trabalhar na comunidade com seu povo em prol dos povos originários. 

Hemilly conta que assim que finalizar o curso pretende estudar Educação Especial, também oferecido pelo Claretiano. “Agora que a prefeitura implantou nas escolas municipais indígenas a sala de recursos multifuncional, é uma oportunidade de começar minha vida profissional nessa área e assim dar retorno dos meus estudos para  minha comunidade”, completa.

“Após a conclusão da minha Graduação, pretendo continuar com os meus estudos. Afinal de contas, ela é apenas uma das etapas e é necessária uma formação continuada. Quero iniciar uma Pós-graduação e também pretendo cursar uma segunda Licenciatura em Computação ou Matemática. São as áreas que mais aprecio”, diz Francisco Bruno.

Ele completa dizendo que com relação à comunidade [dele], já está contribuindo com o desenvolvimento educacional e também cultural. “Desde o ano de 2022, faço parte do quadro de professores da escola, e desde o mês de março de 2024, respondo pela gestão da então unidade educacional, com o apoio dos membros e das Tuxauas, que são as lideranças indígenas”, completa.

Mulher com camiseta da Mostra de Educação Especial posando sorridente em ambiente educacional com detalhes em azul e faixa de acessibilidade no piso.

Gilmara Pereira da Silva

A instituição Claretiano tem um papel fundamental na formação dos povos originários, das etnias: Macuxi, Wapichana, Taurepang, Yanomami dentre várias outras, explica Francisco. “É a única instituição privada de Roraima que oferta vagas e bolsas de estudos para nós indígenas. E afirmo que isto é um avanço grandioso, e que transparece o respeito que a instituição tem pelos povos originários deste país.”

A gratidão também é lembrada por Hemilly: “Agradeço [ao Claretiano] por dar essa oportunidade a muitos jovens indígenas. Eu, como acadêmica, agradeço imensamente aos professores e tutores por sempre estarem nos motivando. Peço em nome de todos que não deixem de investir em nossos estudos, pois muitos jovens nas comunidades saem do Ensino Médio em busca dos cursos oferecidos pelo Claretiano, sabendo que com a ajuda da instituição terão um futuro garantido”, diz.

10 anos de história

Em 2024, Rosana conta que o Claretiano completou 10 anos de atendimento junto aos Povos Indígenas de Roraima, formando mais de 60 alunos: pedagogos, nutricionistas, enfermeiros e administradores. “Nosso propósito é criar um curso específico para os alunos, além de ofertar bolsas em Pós-graduação”, explica.

Quando o assunto são os próximos passos do Claretiano em relação à formação de profissionais indígenas, Rosana diz que além da possibilidade de Pós – graduação em Educação Especial, que é uma demanda muito forte, a instituição realiza um curso inédito no município de Uiramutã – Empreendedorismo Cultural Indígena – para resgatar tradições e valores ancestrais. “Participamos de assembleias e sempre nos colocamos à disposição”. 

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